InícioComunidade

Comunidade

Envelhecer sendo LGBTQ+: cuidado, direitos, saúde e vínculos na velhice

Um guia prático sobre envelhecimento LGBTQ+: o que pessoas queer e trans mais velhas costumam enfrentar, os documentos que protegem parceiros e família escolhida, como achar saúde e casas de repouso respeitosas, como manter os vínculos e como família e cuidadores podem ajudar.

WhatsApp
Mais opções
FacebookTelegramE-mail
Duas xícaras de chá, um par de óculos de leitura e um pequeno broche de arco-íris numa mesa de madeira junto a uma janela ensolarada
Imagem: universe.gay

Envelhecer sendo uma pessoa LGBTQ+ traz as mesmas alegrias e preocupações que todo mundo enfrenta, e mais algumas. Muitos gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans mais velhas viveram épocas em que o seu amor era crime ou era chamado de doença. Muitos perderam amigos para a aids. Muitos construíram famílias de amigos no lugar das famílias de sangue, ou junto com elas. Na velhice, essa história pode aparecer como solidão, medo de desrespeito na saúde ou nas casas de repouso e falhas legais que deixam parceiros e família escolhida sem voz.

A boa notícia é que muita coisa pode ser preparada com antecedência, e hoje existem mais grupos e serviços para pessoas LGBTQ+ idosas do que nunca. Este guia explica os desafios mais comuns, os documentos que protegem você e as suas pessoas, como encontrar cuidado respeitoso e como manter os vínculos. Ele também serve para famílias, amigos e cuidadores que querem ajudar.

Uma geração que passou por muita coisa

As pessoas LGBTQ+ mais velhas de hoje cresceram num mundo muito diferente. Algumas datas ajudam a entender por que algumas se sentem cautelosas:

Quando O que mudou
1973 A Associação Americana de Psiquiatria tirou a homossexualidade da sua lista de transtornos mentais.
Anos 1980 e 1990 A epidemia de aids matou um número enorme de homens gays e bissexuais e de mulheres trans, muitos deles jovens.
17 de maio de 1990 A Organização Mundial da Saúde votou para tirar a homossexualidade da sua classificação de doenças. Hoje essa data é o Dia Internacional contra a Homofobia, a Bifobia e a Transfobia.
De 2001 em diante Países começaram a abrir o casamento para casais do mesmo sexo, a começar pela Holanda. No Brasil, o STF reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo em 2011.

As leis mudaram em épocas diferentes em cada país, e em alguns lugares ainda não mudaram. Uma pessoa que tem 75 anos hoje pode ter passado metade da vida se escondendo. Nosso guia sobre por que o Orgulho existe conta mais dessa história.

Desafios comuns na velhice

Nem toda pessoa LGBTQ+ idosa passa por esses problemas, mas eles aparecem com frequência.

  • Morar sozinho e solidão. Pessoas LGBTQ+ idosas têm mais chance de morar sozinhas e menos chance de ter filhos que possam ajudar, segundo a SAGE, organização americana dedicada a idosos LGBTQ+. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de um em cada quatro idosos vive isolado socialmente, e o isolamento faz mal à saúde mental e física.
  • Medo de desrespeito no cuidado. Muita gente teme que médicos, cuidadores ou funcionários de casas de repouso julguem, ignorem o parceiro ou se recusem a usar o nome e os pronomes certos.
  • Voltar para o armário. Algumas pessoas que viveram fora do armário por décadas voltam a se esconder quando precisam de cuidado, porque se sentem vulneráveis.
  • Falhas legais. Sem os documentos certos, um parceiro com quem você não é casado, ou um amigo próximo, pode não ter direito de visitar você no hospital, tomar decisões médicas ou herdar.
  • Dinheiro. Algumas pessoas idosas sofreram discriminação no trabalho por anos ou perderam direitos de pensão para o parceiro antes de as relações entre pessoas do mesmo sexo serem reconhecidas.
  • Histórico de saúde. Sobreviventes de longa data do HIV estão envelhecendo com o vírus, e algumas pessoas trans idosas têm necessidades de saúde que nem todo médico conhece.
  • Luto. Perder um parceiro é difícil para qualquer um. Pode ser ainda mais difícil quando os outros não tratavam a relação como verdadeira.

Documentos que protegem você e as suas pessoas

Este é o passo mais prático que você pode dar, e ele é ainda mais importante para quem tem como pessoa mais próxima alguém que não é cônjuge nem parente de sangue. Os nomes e as regras mudam de país para país, então procure um advogado, um cartório ou a Defensoria Pública, mas as ferramentas principais são parecidas em quase todo lugar.

  1. Testamento. Sem ele, a lei muitas vezes entrega tudo aos parentes de sangue, até aqueles com quem você não fala há anos. O testamento permite deixar sua casa, suas economias e seus objetos para o parceiro, amigos ou causas que você apoia.
  2. Procuração para dinheiro e bens. Ela indica uma pessoa que pode cuidar das suas contas e pagamentos se você não puder.
  3. Procuração ou indicação para decisões de saúde. Ela indica quem pode conversar com os médicos e decidir por você se você não conseguir falar.
  4. Diretivas antecipadas de vontade, também chamadas de testamento vital. Elas registram que tratamentos você quer ou não quer no fim da vida.
  5. Contatos de emergência. Diga ao seu médico e ao hospital quem são as suas pessoas, e deixe isso por escrito.
  6. Desejos para o funeral. Escreva como você quer ser lembrado, que nome usar e quem deve estar presente. Pessoas trans podem deixar claro qual nome e qual gênero devem aparecer.

Guarde cópias num lugar seguro e diga às pessoas envolvidas onde encontrá-las. Revise os documentos depois de mudanças grandes, como uma separação, uma mudança de casa ou uma morte.

Encontrando atendimento de saúde respeitoso

Você merece um atendimento que enxergue você por inteiro.

  • Pergunte por aí. Grupos LGBTQ+ locais, serviços de HIV e comunidades online costumam saber quais médicos são respeitosos.
  • Leve uma pessoa de apoio às consultas importantes, se isso ajudar você a se sentir seguro.
  • Diga o que importa. Você pode falar “Esta é minha companheira” ou “Por favor, use este nome”. Se não se sentir seguro para dizer, você não é obrigado.
  • Faça os exames que combinam com o seu corpo. Pessoas trans podem precisar de exames para órgãos que ainda têm, seja qual for o seu gênero.
  • Sobreviventes de longa data do HIV podem perguntar sobre coração, ossos, memória e saúde mental, que costumam pedir atenção extra com a idade.
  • Saúde mental conta. Depressão na velhice é comum e tem tratamento. Não é “só coisa da idade”.

Cuidado em casa e casas de repouso

Se você precisa de ajuda em casa ou está escolhendo uma casa de repouso, estas perguntas ajudam a avaliar se o lugar será seguro:

Pergunta para fazer Por que importa
Vocês têm uma regra escrita contra discriminação, incluindo orientação sexual e identidade de gênero? Mostra que o lugar pensou no assunto e dá a você algo para cobrar.
A equipe recebeu treinamento sobre moradores LGBTQ+? O treinamento diminui a chance de comentários ofensivos e erros.
Meu parceiro pode visitar livremente, dormir aqui ou dividir o quarto? Casais devem ser tratados como qualquer outro casal.
Vão usar meu nome e meus pronomes, inclusive nos registros? O respeito à identidade não deve acabar quando alguém precisa de cuidado, inclusive em pessoas com demência.
Há outros moradores LGBTQ+ ou atividades para eles? Não ser o único faz uma grande diferença.

Se algo der errado, anote o que aconteceu e quando, e use o canal de reclamações. Muitos lugares têm órgãos de fiscalização ou ouvidorias para serviços de cuidado.

Mantendo os vínculos

Solidão não é fracasso pessoal. Muitas vezes vem da perda de amigos, de mudanças ou de problemas de saúde. Pequenos passos ajudam:

  • Entre num grupo para pessoas LGBTQ+ idosas. Muitas cidades têm clubes, corais, grupos de caminhada, encontros para café ou serviços de amizade em que um voluntário visita ou liga com regularidade.
  • Misture gerações. Alguns projetos juntam pessoas queer mais velhas e mais novas para trocar histórias. Os mais jovens costumam valorizar muito ouvir como a vida era.
  • Use a internet, no seu ritmo. Chamadas de vídeo e comunidades LGBTQ+ online com moderação ajudam a manter contato. Peça a um amigo ou a uma biblioteca para ajudar a configurar.
  • Seja voluntário. Ajudar numa Parada, numa linha de apoio ou numa ONG local traz propósito e novos contatos.
  • Cuide da sua família escolhida. Nosso guia sobre construir uma família escolhida traz ideias para manter esses laços fortes.
  • Se você mora longe de uma cidade grande, nosso guia sobre fazer amigos queer em cidade pequena tem dicas que servem para qualquer idade.

Sair do armário mais tarde

Algumas pessoas saem do armário aos 60, 70 anos ou mais, depois de um casamento, depois que os filhos cresceram ou depois da morte do cônjuge. Nunca é tarde. Sair do armário mais tarde pode trazer alívio e novas relações, e também preocupação com a reação dos filhos adultos ou de velhos amigos. Nossos guias sobre sair do armário do seu jeito e sobre questionar sua sexualidade ou seu gênero servem para qualquer idade.

Para famílias, amigos e cuidadores

Se você gosta de uma pessoa LGBTQ+ idosa, pode ajudar muito:

  • Trate o parceiro e a família escolhida como família. Convide, informe e inclua essas pessoas nas decisões quando a pessoa quiser.
  • Use o nome e os pronomes certos, inclusive ao falar com médicos e funcionários.
  • Não pressuponha que ela é hétero ou cisgênero. Faça perguntas abertas, como “Tem alguém especial na sua vida?”
  • Ajude com os documentos se ela pedir, e respeite as escolhas dela mesmo que você escolhesse diferente.
  • Fale se perceber desrespeito no atendimento de saúde ou numa casa de repouso.
  • Escute as histórias. Muitas pessoas LGBTQ+ idosas guardam memórias sobre as quais quase ninguém perguntou.

Em resumo

  • Muitas pessoas LGBTQ+ idosas viveram a criminalização, o estigma e a epidemia de aids, e essa história marca a velhice.
  • Morar sozinho, solidão, medo de desrespeito no cuidado e falhas legais são desafios comuns.
  • Testamento, procurações e diretivas antecipadas de vontade protegem parceiros e família escolhida.
  • Existem atendimento de saúde e casas de repouso respeitosos; as perguntas certas ajudam a encontrá-los.
  • Grupos, voluntariado, contato online e família escolhida ajudam a evitar a solidão.
  • Nunca é tarde para sair do armário ou para criar novos vínculos.

Envelhecer sendo LGBTQ+ pode ser um tempo de orgulho, liberdade e amizades profundas. Planejar com antecedência dá a você mais controle sobre os anos que vêm.

Fontes e referências

WhatsApp
Mais opções
FacebookTelegramE-mail