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História do drag e do ballroom: dos bailes do Harlem ao voguing, às houses e aos palcos de hoje

Uma história clara do drag e da cultura ballroom: tradições antigas do teatro, os bailes do Harlem, William Dorsey Swann, Crystal LaBeija e o sistema de houses, o voguing, os anos da aids, Paris Is Burning e como curtir drag hoje com respeito.

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Um sapato de salto alto brilhante, um leque de plumas e um troféu dourado num palco iluminado por um holofote rosa
Imagem: universe.gay

Drag é a arte de interpretar o gênero de um jeito grande, divertido ou exagerado, quase sempre num palco. Ballroom é uma cultura de competição criada principalmente por pessoas LGBTQ+ negras e latinas em Nova York, onde “houses” (casas) disputam em eventos chamados bailes, desfilando em categorias, dançando e exibindo looks. Os dois são parentes e dividem muita história, mas não são a mesma coisa. Drag pode acontecer em qualquer lugar que tenha um palco. Ballroom é uma comunidade com regras, famílias e linguagem próprias.

Este guia conta a história em ordem: as tradições antigas do teatro, os primeiros bailes drag, o sistema de houses, o voguing, os anos duros da aids e o momento em que drag e ballroom chegaram ao grande público. No final, há dicas para curtir drag e ballroom com respeito.

Palavras rápidas antes de começar

Palavra O que significa
Drag queen Artista, muitas vezes um homem, que cria uma personagem feminina exuberante
Drag king Artista, muitas vezes uma mulher, que cria uma personagem masculina
Baile (ball) Evento de competição em que as pessoas desfilam em categorias por troféus e prêmios
House Família escolhida dentro do ballroom, liderada por uma “mãe” e às vezes por um “pai”
Categoria Tema em que se compete, como passarela, rosto ou realness
Walk Competir numa categoria
Vogue Estilo de dança nascido no ballroom, feito de poses de modelo e linhas precisas
Reading e shade Alfinetadas inteligentes e afiadas, uma arte antiga do ballroom

Drag é uma performance, não uma identidade. Artistas drag podem ser gays, héteros, bissexuais, trans, não binários ou qualquer outra coisa. Ser drag queen não é o mesmo que ser mulher trans, embora algumas mulheres trans façam drag. Nosso guia sobre o que significa ser transgênero explica a diferença.

Antes da palavra “drag”: o gênero no palco

Durante séculos, muitos teatros não deixavam mulheres subirem ao palco, e por isso homens e meninos faziam os papéis femininos.

  • Na Inglaterra de Shakespeare, atores adolescentes interpretavam Julieta, Lady Macbeth e todas as outras personagens femininas.
  • No kabuki japonês, as mulheres foram proibidas de atuar nos anos 1600, e atores homens chamados onnagata se tornaram mestres dos papéis femininos. A tradição existe até hoje.
  • Na ópera chinesa, artistas homens em papéis femininos viraram grandes estrelas.

Isso não era drag no sentido moderno, porque fazia parte das regras normais do teatro. Mas mostra que brincar com o gênero no palco é algo muito antigo.

No fim dos anos 1800 e começo dos 1900, os teatros de variedades e o vaudeville transformaram a brincadeira com o gênero num número popular. Imitadores de mulheres como Julian Eltinge viraram grandes estrelas nos Estados Unidos, e imitadoras de homens como Vesta Tilley lotavam teatros britânicos. Esses artistas costumavam cuidar para parecer respeitáveis em público, porque a mesma sociedade que comprava ingressos punia pessoas queer fora do palco.

Ninguém sabe ao certo de onde vem a palavra “drag”. Uma história popular diz que vem de uma gíria de teatro sobre saias compridas que se arrastavam (“drag”) no chão. Outra ligação aponta para “grand rag”, um termo antigo para baile de máscaras.

William Dorsey Swann: a primeira “rainha do drag” conhecida

Nos anos 1880, em Washington, nos Estados Unidos, um homem que tinha sido escravizado, William Dorsey Swann, organizava festas secretas em que homens usavam vestidos de gala e dançavam. Ele chamava essas festas de “drags” e se chamava de rainha delas. O historiador Channing Gerard Joseph descobriu que Swann é a primeira pessoa registrada a se chamar de rainha do drag.

A polícia invadiu as festas de Swann mais de uma vez. Em 1888 ele resistiu à prisão, um dos primeiros atos conhecidos de resistência de uma pessoa queer contra a polícia nos Estados Unidos. Mais tarde, depois de uma condenação, pediu perdão ao presidente e teve o pedido negado. Sua história ficou quase esquecida por cem anos.

Os bailes do Harlem

Em Nova York, o baile da Hamilton Lodge, no Harlem, costuma ser chamado de primeiro baile drag registrado no país. Começou em 1869 como um baile de máscaras organizado por uma loja fraternal negra. Nos anos 1920 e 1930, durante o Renascimento do Harlem, esses bailes atraíam milhares de convidados e espectadores. Homens de vestido e mulheres de terno desfilavam diante de jurados, e os jornais escreviam sobre eles com uma mistura de choque e fascínio.

Esses bailes eram raros lugares onde pessoas queer podiam se reunir em grande número. Também eram arriscados. A polícia muitas vezes usava leis contra disfarces em público para prender pessoas montadas no caminho de volta para casa.

Racismo, Crystal LaBeija e o nascimento das houses

Nos anos 1960, concursos de drag eram comuns, mas muitos eram organizados por pessoas brancas e julgados a favor de queens brancas. Queens negras e latinas tinham de clarear a maquiagem para ter alguma chance.

Em 1967, uma queen negra chamada Crystal LaBeija disputou um concurso nacional de drag em Nova York e perdeu para uma concorrente branca. Ela saiu do palco e falou com raiva sobre o julgamento injusto. O momento foi registrado no documentário The Queen, de 1968, e virou um ponto de virada.

No começo dos anos 1970, por volta de 1972, Crystal LaBeija e Lottie LaBeija criaram a House of LaBeija, normalmente descrita como a primeira house do ballroom. Vieram outras, com nomes como Xtravaganza, Ninja, Corey, Dupree, Pendavis e muitas mais.

Uma house é mais do que um time. Muitos jovens LGBTQ+ negros e latinos tinham sido rejeitados pela família ou expulsos de casa. A house dava a eles uma mãe, irmãos, conselhos, comida, às vezes um lugar para dormir e um motivo para sonhar alto. O ballroom é um dos exemplos mais fortes do que nosso guia sobre família escolhida descreve.

Como funciona um baile

Um baile é ao mesmo tempo um show e uma competição.

  1. As categorias são anunciadas antes. Algumas são de moda, como passarela ou grifes. Outras são de beleza, como rosto. Outras são de realness, em que o objetivo é parecer tão convincente num papel, como executivo ou estudante, que daria para passar despercebido fora do ballroom sem sofrer agressão.
  2. O comentarista, um apresentador com microfone, canta por cima da música, anima o público e mantém a noite andando.
  3. Os jurados ficam numa mesa. Se amam uma concorrente, gritam “dez em todas as notas”. Se algo está errado, dão um “chop”, e a pessoa está fora.
  4. As vencedoras levam troféus, prêmios e, acima de tudo, prestígio para a sua house.

O realness tinha uma lógica dolorosa. Para muitas mulheres trans e homens gays não brancos, passar despercebido na rua podia significar segurança. O ballroom transformou essa habilidade de sobrevivência em arte e em troféu.

Voguing

O voguing é a dança que a maioria das pessoas liga ao ballroom. Ele cresceu nos bailes do Harlem a partir dos anos 1970, inspirado nas poses de modelos em revistas de moda como a Vogue. Willi Ninja, muitas vezes chamado de avô do vogue, tornou o estilo famoso e o ensinou muito além do ballroom.

Há três estilos principais:

  • Old way: linhas retas, ângulos e poses simétricas.
  • New way: movimentos mais fechados, flexibilidade, controle dos braços e “clicks”.
  • Vogue femme: fluido, dramático e muito feminino, muitas vezes descrito por cinco elementos: mãos, catwalk, duckwalk, giros e quedas (spins and dips) e performance no chão.

Stonewall, aids e sobrevivência

Drag queens e mulheres trans não brancas estavam entre as pessoas no centro da revolta de Stonewall, em 1969, o evento lembrado todo ano pelo Orgulho. Nosso guia sobre por que o Orgulho existe conta essa história.

Nos anos 1980 e 1990, a epidemia de aids atingiu o ballroom com muita força. Muitas lendas, mães e filhos morreram jovens, incluindo Willi Ninja, em 2006, e várias pessoas que apareceram em filmes famosos sobre o ballroom. As houses enterravam seus membros e continuavam fazendo bailes. Por volta de 1990, uma organização de saúde de Nova York criou a House of Latex para levar mensagens de prevenção ao HIV diretamente ao ballroom, e desde então o ballroom continua ligado à conscientização sobre o HIV.

Quando o mundo começou a assistir

  • 1990: a música “Vogue”, de Madonna, levou a dança ao rádio e à televisão no mundo todo. Muitos dançarinos do ballroom sentiram que o crédito não voltou para a comunidade que criou a dança.
  • 1990: o documentário Paris Is Burning, dirigido por Jennie Livingston, mostrou a cena dos bailes de Nova York dos anos 1980. Em 2016, a Biblioteca do Congresso dos EUA o incluiu no Registro Nacional de Filmes. O filme é muito amado, mas também se discute quem lucrou com ele, já que muitas das pessoas que aparecem continuaram pobres.
  • 2009: estreou RuPaul’s Drag Race, que transformou o drag num gênero de TV mundial.
  • De 2018 a 2021: a série Pose contou histórias do ballroom dos anos 1980 e 1990, com o maior elenco de atrizes e atores trans em papéis fixos da história da televisão até então.

Hoje existem cenas de ballroom em muitos países da Europa, da Ásia e da América Latina, incluindo o Brasil, e uma cena jovem chamada kiki oferece aos mais novos uma forma com menos pressão de competir. Nosso guia de cinema queer sugere mais filmes para ver.

Palavras que o mundo pegou emprestado

Muitas palavras usadas hoje em gírias do dia a dia vieram de espaços queer negros e latinos e do ballroom, como “shade”, “reading”, “serving”, “realness”, “slay” e “yas”. Não é errado usá-las, mas ajuda saber de onde vieram e dar o crédito. Quando as palavras de uma cultura viram moda enquanto o seu povo continua pobre ou inseguro, vale prestar atenção.

O drag hoje

O drag está hoje em bares, teatros, festivais, televisão, videoclipes e eventos para toda a família. Drag kings, artistas não binários e muitos estilos que brincam com monstros, fantasia ou comédia fazem parte da cena.

O drag também virou alvo. Nos últimos anos, alguns políticos em diferentes países tentaram limitar shows de drag, o que gerou protestos e processos na Justiça. Artistas e fãs defendem que o drag é uma forma de arte e de liberdade de expressão com uma história muito longa.

Como curtir drag e ballroom com respeito

  • Dê gorjeta para as artistas. Muitas drags tiram boa parte da renda das gorjetas.
  • Não toque nas artistas, nas perucas ou nas roupas sem permissão clara.
  • Num baile, você é convidado. Siga as regras do evento, torça bem alto e não entre na passarela.
  • Pergunte antes de filmar se não tiver certeza de que o evento permite.
  • Dê crédito às origens. Quando compartilhar vogue ou gírias do ballroom, lembre das pessoas LGBTQ+ negras e latinas que criaram tudo isso.
  • Apoie as cenas locais, não só as estrelas da televisão.

Em resumo

  • Drag é a arte de interpretar o gênero; ballroom é uma cultura de competição com houses, categorias e linguagem própria.
  • Brincar com o gênero no palco tem séculos, dos atores adolescentes de Shakespeare ao kabuki.
  • William Dorsey Swann organizava “drags” nos anos 1880 e se chamava de rainha delas.
  • O baile da Hamilton Lodge começou no Harlem em 1869 e cresceu muito nos anos 1920.
  • Crystal e Lottie LaBeija criaram a primeira house por volta de 1972, depois do racismo nos concursos de drag.
  • O voguing cresceu nos bailes do Harlem e chegou ao mundo em 1990.
  • O ballroom sobreviveu à epidemia de aids e continua sendo um modelo de família escolhida.

Drag e ballroom são alegria, mas foram construídos por pessoas que precisaram lutar para existir. Conhecer a história faz cada apresentação valer mais. Para outros símbolos da história queer, veja nosso guia sobre símbolos LGBTQ+.

Fontes e referências

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